A cena musical amazônica contemporânea ganha um novo capítulo emocional com o lançamento de “Todas as mensagens que nunca te enviei”. O novo EP de RAIDOL, lançado pelo selo suave.cito, não é apenas um conjunto de três faixas, mas um arquivo de silêncios rompidos e afetos que finalmente encontraram o seu caminho para o mundo. Após o impacto de projetos anteriores e de palcos como o The Town, a artista trans paraense retorna com uma obra que investiga a comunicação interrompida e a coragem de se despir emocionalmente.
O trabalho mergulha nas raízes urbanas de Ananindeua e Belém, fundindo a nostalgia do brega saudade com a energia pulsante do melody. Sob a produção de Will Love, o EP conta com colaborações estratégicas de Maderito, Rebeca Lindsay e Luê, que ajudam a desenhar uma narrativa de transformação. Visualmente, o projeto se expande em uma live session gravada na bucólica Ilha de Mosqueiro, onde o cenário surrealista dialoga com a força cênica de uma artista que se consolida como uma das vozes mais potentes do Norte do país.
Como uma espécie de ritual de passagem, este lançamento marca o início do encerramento de um ciclo criativo iniciado em “Mandinga”, preparando o terreno para voos ainda mais ambiciosos em 2026. Entre referências que abraçam desde a densidade de Maria Bethânia até a vivacidade da cena atual do Pará, RAIDOL utiliza sua música como ferramenta de cura e afirmação, celebrando não apenas sua trajetória individual, mas o avanço coletivo de artistas travestis na música brasileira.
Na entrevista a seguir, RAIDOL revela os detalhes da curadoria dessas “confissões guardadas”, explica como suas memórias de infância no Conjunto Jardim Amazônia I moldaram a estética do projeto e reflete sobre a importância política de ocupar territórios geográficos e artísticos. Ela detalha, ainda, a dinâmica das parcerias musicais que narram o percurso entre o encantamento e a retomada de si, antecipando o que a “RAIDOL de 2026” está deixando para trás para construir seu próximo álbum. Confira a conversa completa:
O título do seu novo EP, “Todas as mensagens que nunca te enviei”, sugere um arquivo de silêncios que finalmente ganham voz. Como foi o processo de curadoria dessas confissões guardadas e qual foi o critério para decidir o que deveria virar música e o que deveria permanecer no campo do privado?
Me inspirei em grandes artistas da música brasileira como Elis Regina, Fafá de Belém e Bethania, que sempre tiveram uma curadoria fina pra montar boas obras. Fui atrás de canções que simbolizassem momentos e relações da minha vida em que eu deixei de dizer algo.
Tava cursando o curso técnico de teatro na universidade federal do Pará e aprendi que teatro é doloroso. Entendi que a arte num geral é assim. Os indultos que a gente se utiliza pra performance sempre são muito viscerais, então nesse projeto eu não tive pudor não. Me despi e senti o que tinha que vir.
Ouça:
A estética visual do projeto une o surrealismo de Frida Kahlo e Dalí com elementos muito locais, como a coroa de latinha e o pulmão em forma de pássaro, como essa iconografia traduz a sua vivência urbana em Ananindeua e a urgência de colocar seus afetos para fora?
Vivi em Ananindeua até o início da minha adolescência, no conjunto Jardim Amazônia I, tenho memórias sonoras de ouvir brega no dia a dia da cidade; seja no som de um carro passando na rua ou no comercial da televisão. Então esse ritmo vive intrínseco na vida de quase todo paraense. Quando resolvi desenvolver esse projeto tive que revisitar memórias e sensações dessa época.
Lembrei também como era contida e como guardava meus afetos pra mim, sem contar pra ninguém. E como essas amarras ficaram presentes até hoje na minha vida. Então a urgência de colocar os afetos pra fora também é fazer as pazes com aquela criança que foi muito contida ao longo da sua infância e que hoje desabrocha e que busca explanar cada vez mais sobre seus afetos.
Sendo uma artista trans amazônida que já passou por palcos como o The Town e o Natura Musical, como você enxerga a importância de ocupar a Ilha de Mosqueiro em um plano sequência para apresentar esse trabalho, unindo a performance cênica à geografia da sua região?
Ocupar esses lugares é escancarar portas pra mais artistas trans da região amazônica que fazem seus trabalhos com maestria. Também é trazer o olhar das pessoas pra essa região brasileira. Mosqueiro é uma ilha distrital que faz parte de Belém. Ilha que tem praias de água doce que fazem ondas iguais ao mar.
Mosqueiro é um encontro do passado com o presente de Belém. Um cenário bucólico e paradisíaco que já orquestrou carnavais, festivais de verão e inúmeras histórias de amor.

O EP transita entre o brega saudade e o melody com sintetizadores, bebendo de fontes que vão de Maderito a Maria Bethânia, de que forma essa mistura sonora ajuda a contar a narrativa de superação e retomada de si que atravessa as três faixas?
Essa mistura sonora é exatamente o que sustenta a narrativa do EP. O brega saudade carrega essa memória afetiva, essa dor mais crua, quase nostálgica, ele fala de um lugar onde as coisas ainda estão abertas, onde o sentimento ainda pulsa. Já o melody, com os sintetizadores, traz movimento, deslocamento, uma sensação de continuidade, de que existe vida depois daquilo que foi vivido.
Quando eu penso nessas referências eu estou falando também sobre intensidade. São artistas que não economizam emoção, cada um à sua maneira. E isso me interessa muito, porque esse EP não tenta suavizar nada, ele mergulha mesmo.
As participações de Maderito, Rebeca Lindsay e Luê parecem desenhar um mapa da cena paraense atual, como cada um desses artistas ajudou a dar o tom emocional específico para os momentos de encantamento, desgaste e autonomia descritos no roteiro do EP?
O Maderito entra muito nesse lugar do encantamento, mas não de um jeito ingênuo, é aquele encantamento já atravessado pela vivência, sabe? Ele carrega essa força do brega mais clássico, mais visceral, e isso dá peso pra esse momento inicial onde tudo ainda pulsa, onde existe entrega, desejo, intensidade.
A Rebeca Lindsay vem num ponto que eu vejo como desgaste. Tem uma densidade ali, uma coisa mais crua, quase de confronto com a realidade do que aquela relação virou. A voz dela traz uma presença muito firme, e ao mesmo tempo sensível, que ajuda a traduzir esse momento de fricção, de cansaço emocional, mas também de lucidez.
E a Luê chega como esse respiro de autonomia. Tem uma leveza, mas não é uma leveza vazia; é uma leveza consciente, de quem já entendeu o que precisava entender e consegue seguir. A presença dela ajuda a apontar esse lugar de reconstrução, de se recolocar no mundo com mais clareza sobre si.
No fim, eu vejo esse trio como um recorte possível da cena paraense: uma pequena parte da pluralidade que existe no Pará, que é o segundo maior estado do país. Existe uma vastidão de artistas criando, experimentando e moldando a cena em diferentes linguagens, e esse encontro no EP é também uma forma de celebrar essa diversidade.

Você mencionou que este trabalho marca o início do encerramento de uma fase criativa iniciada em “Mandinga”. O que a RAIDOL de 2026 está deixando para trás nessas “mensagens não enviadas” para conseguir abrir caminho para o seu segundo álbum de estúdio?
Eu acho que esse EP é muito sobre aprender a soltar. Eu deixo pra trás tudo aquilo que não me cabe mais, tudo que não me completa, mesmo que em algum momento tenha sido importante. Essas “mensagens não enviadas” são quase um ritual de encerramento, de entender o que precisava ser dito internamente e externamente pra eu conseguir seguir. É também um marco de consciência. Hoje eu tenho muito mais clareza sobre quem eu sou, sobre o que eu quero construir e onde eu quero chegar. Esse trabalho fecha um ciclo em que eu priorizei muito os meus afetos amorosos, minhas relações, e agora eu sinto uma virada muito forte de eixo.
Eu tô me escolhendo mais. Tô direcionando minha energia pra minha carreira, pros meus projetos, praquilo que eu acredito como artista. Porque eu tenho sonhos grandes e mais do que isso, eu tenho muita gana de conquistar cada um deles. Esse EP encerra uma fase, mas também abre um caminho muito mais consciente e ambicioso pro que vem no meu segundo álbum.
